
15 April 2016
"O impacto do terrorismo nas economias desenvolvidas"
Por João Boa, Senior Analyst da Baker Tilly
In Jornal OJE (artigo original)
Os recentes ataques ocorridos em Paris e Bruxelas, fizeram ressuscitar o debate sobre o impacto do terrorismo em economias desenvolvidas. As opiniões, suportadas por estudos empíricos, são unânimes em considerar diminutos os danos colaterais destas ofensivas.
As expectativas de crescimento e o consumo mantém-se. A atividade industrial não sai afetada, e os mercados de capitais são resilientes o suficiente para garantir liquidez e estabilidade aos investidores. As infraestruturas são reconstruídas rapidamente, sem grande impacto para o cidadão. Tudo parece salvaguardado, mas não.
“Mais aviões, mais navios e mais pessoas.” Esta citação foi proferida pelo primeiro-ministro inglês, aquando do anúncio de um investimento adicional de 17 mil milhões de Euro na Defesa Nacional, após os ataques à redação do Charlie Hebdo. Os atentados terroristas tendem a impulsionar os fundos canalizados para a Defesa Nacional, refletindo, por um lado, a necessidade de aumentar a sensação de segurança providenciada aos cidadãos, que promova um retorno ao status quo o mais célere possível. Por outro, servem de trigger ao incremento dos meios disponibilizados (“mais aviões, mais navios e mais pessoas”) para o combate ao terrorismo, que por norma se concretiza nas geografias de origem dos autores dos atentados.
No entanto, a segurança sai cara. E sai cara porque é realizado um trade-off direto entre os fundos alocados a este segmento e outros, essenciais para o bem-estar do cidadão, geralmente, por via do aumento de impostos, e em casos mais extremos, pela redução dos fundos alocados à saúde e à educação.
Adicionalmente, existem setores de atividade específicos, que não passam incólumes a estes eventos.
O turismo sai afetado, e muito. As reações emocionais, com envolvimento pessoal, impactam de sobremaneira nas opções das pessoas. São poucos os que se sentem confortáveis para viajar para locais onde não se sintam seguros. De acordo com estudos realizados, o ano que se seguiu ao ataque às torres gémeas registou um decréscimo global do número de turistas de 3%. Nos Estados Unidos, o impacto foi de 13%.
Outras fontes indicam que os ataques terroristas provocam um impacto maior na escolha dos viajantes do que catástrofes naturais, particularmente pelo receio de reincidência.
Hotéis, companhias de aviação, restaurantes e serviços de lazer são os mais afetados no curto prazo. De acordo com o Comitê Regional de Turismo, em Paris, nos dias que se seguiram às investidas do Estado Islâmico, os hotéis / hostels registaram uma quebra de 22%. Nos hotéis de luxo, o impacto foi de 50%, uma vez que grande parte dos seus clientes são turistas. A Air France anunciou uma quebra de 50% de viajantes, com o setor aéreo francês a registar um número de anulações superior ao de reservas.
Em suma, as economias desenvolvidas são ágeis a recuperar destes eventos. Não obstante, existem setores específicos que sofrem evidentes efeitos colaterais negativos. A qualidade de vida dos cidadãos sai prejudicada em prol da reafectação do investimento público para os setores da segurança, revelando-se tais efeitos ainda mais penosos em economias elevadamente dependentes do turismo.