23 de julho de 2019

Auditoria externa: a última fronteira

A responsabilidade e a exposição dos auditores tem crescido em flecha. Financiadores, fornecedores, investidores exigem contas certas, contas auditadas. Os escândalos financeiros e as fraudes a que temos assistido, contribuem para o reconhecimento de que ter contas auditadas é um requisito imprescindível. Mas aumenta o expectation gap, pois o mercado/stakeholders assumem que uma auditoria tudo descobre. Mas não é assim. Em débeis ambientes de controlo interno e corporate governance, onde a fraude cada vez mais envolve vários intervenientes que pactuam entre si, e que utilizam sofisticadas ferramentas informáticas, por norma a auditoria apenas descobre os factos depois destes ocorrerem.

Desenharam-se novas regras de rotação de auditores, atribuíram-se responsabilidades adicionais em auditorias para Entidades de Interesse Público (“EIP’s”) e definiram-se novos padrões de auditoria (ISA).

A proliferação de novas tecnologias, negócios mais sofisticados e crescente escrutínio de stakeholders e opinião pública, aumentam o risco para a profissão de auditoria. O crescente recurso a tecnologias de informação para tratamento e análise de dados e requisitos de maior qualificação técnica nestas áreas, são desafios e oportunidades para a profissão. Mas são também áreas preferenciais para quem atua de forma fraudulenta.

As fraudes e a falta de ética com que muitos negócios são efetuados, exigem o fortalecimento de três niveis de defesa:

i) Primeiro nível: um ambiente de ética e corporate governance, exigente, ativo e presente, defensor de políticas e práticas alinhadas com as best practices;

ii) Segundo nível: O desenho, a divulgação e a implementação de manuais de práticas e procedimentos detalhados, cobrindo os principais riscos e processos que os gerem e mitigam. A existência de um sistema de gestão de risco e controlo interno, efetivo e atuante na prática;

iii) Terceiro nível: a monitorização e auditoria. A monitorização através de uma auditoria interna focada nos principais riscos operacionais e de negócio, capaz de identificar falhas e acima de tudo adoptando uma atitude construtiva, sugerindo recomendações para a melhoria da eficiência e controlo das operações. E por fim a “última fronteira”: uma auditoria externa, independente, íntegra e competente, atuando de forma ética, capaz de reportar as suas conclusões de forma detalhada e objetiva.

Novas regras de auditoria ditaram uma prática de rotação periódica de auditores, para EIP’s, limitando a prestação de determinados serviços distintos de auditoria. Estas regras exigem melhores práticas de quality control, melhor documentação do trabalho efetuado e respetivas conclusões, envolvimento de especialistas, em particular em áreas emergentes (sistemas de informação, ambiente e sustentabilidade, entre outras), bem como maior aderência aos valores da ética e independência e respeito pelos conflitos de interesse/serviços proibidos.

A efetiva implementação destas regras, envolve uma significativa maior carga de trabalho por parte dos auditores. Portanto, a sustentabilidade da profissão, está dependente da introdução de dois factores:

  1. Ganhos de eficiência (adoção de novas tecnologias que potenciem eficiências na forma como a informação é recolhida e analisada e como os testes de auditoria são realizados e documentados);
  2. Aumento de honorários, para suportar a maior carga de trabalho, decorrente do alargamento do âmbito de atuação, nível de responsabilidades assumidas e natureza dos relatórios a emitir (outputs mais detalhados e complexos, em particular nas EIP’s).

A supervisão (quality control) por parte das entidades reguladoras aumentará por certo nos próximos tempos, os quais também devem continuar o seu percurso de familiarização com as novas regras, e em particular na necessidade de constituição de equipas alargadas que saibam aliar melhor, não só conhecimentos e conceitos teóricos vertidos nos manuais e nas novas regras de auditoria, mas essencialmente com experiência prática da profissão, para melhor entenderem a forma de atuar e documentar dos auditores, que fazem desta atividade a sua única profissão.

De realçar que esta última fronteira (auditoria externa), só será intransponível se a comunidade empresarial (gestão, acionistas, reguladores, auditores, órgãos de fiscalização), em definitivo assumir preocupações prioritárias com a ética e a responsabilidade social, atuando de forma independente e sem conflitos de interesse. As empresas de auditoria Mid-tear, estão prontas para assumirem o seu papel e demonstrarem que qualidade, capacidade de resposta e ética não são de todo exclusivo das maiores auditoras. Nas auditoras Mid-tear, a menor dimensão dos serviços não relacionados com auditoria (consultoria, advisory, etc.), diminuem também os riscos associados a questões de independência e conflito de interesses.

Paulo André, Managing Partner, Baker Tilly

In Revista Indústria, Revista de Empresários e Negócios, Dossiê Especial de Auditoria

 

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