30 de janeiro de 2020

Análise dos fluxos de exportação de moldes no período 2008-2018

Em 2008, de acordo com a Comtrade, a base de dados das Nações Unidas para o comércio internacional, as exportações totais de moldes totalizaram cerca de 8.510 milhões de USD. Deste total, as exportações do nosso país representariam quase 5,2%.
A nível mundial como evoluíram as exportações de moldes para injeção de plásticos no período entre 2008 e 2018? Quais foram os países com uma melhor performance? As exportações portuguesas, como se comportaram neste período? E como está a posição de Portugal nos seus destinos tradicionais de exportação em 2018 face a 2009? O objetivo do nosso artigo é analisar estas questões, ou seja, analisar a evolução das exportações mundiais e enquadrá-las com o desempenho do nosso País e da sua posição concorrencial nas suas principais geografias de exportação.
A nossa análise teve como base os dados existentes na Comtrade (para o produto com código 848071 – Moulds for rubber or plastics, injection or compression types) e são sempre apresentados em dólares norte-americanos (USD). As limitações do nosso estudo são referidas no final do artigo.

As exportações mundiais de moldes

O comércio exportador mundial de moldes, apresentava em 2008, um grau de concentração elevado em poucos países, com o Top 11 (considerando os dados referentes a Hong Kong em separado da restante China), a representar cerca de 82,9% das exportações.
Nesse ano, o Japão foi o principal exportador de moldes, com 1.160 milhões de USD de valor de moldes exportados o que correspondia a um peso de 13,6% nos fluxos de exportação totais. A China estava já nesse ano, apenas ligeiramente abaixo do lugar cimeiro do Top de países exportadores, com uma quota inferior em 0,3 pontos percentuais à quota do Japão. Portugal, ocupava o 8º lugar do ranking com um total de 439 milhões de USD.
Na sequência da crise mundial iniciada em 2008, a atividade exportadora de moldes registou uma contração logo em 2009, tendo as exportações apresentado uma redução de cerca de 13,3%. De acordo com os dados da Comtrade, os anos de 2011 e 2012 ,foram os anos em que as exportações de moldes apresentaram as taxas de crescimento anual mais elevadas com valores de 19,6% e 16,2% respetivamente. Aliás, foi no ano de 2011, que as exportações de moldes finalmente ultrapassaram os valores registados em 2008 .
De 2011 até 2014, as exportações de moldes registaram sucessivas taxas de crescimento anual, superando o limiar dos 12,0 mil milhões de USD em 2014. Embora tenham apresentado ligeiros decréscimos no biénio 2015-2016, as exportações de moldes regressaram a uma trajetória de crescimento em 2017, totalizando 13.018 milhões de USD em 2018.
A mensagem central que deveremos retirar da evolução das exportações de moldes no período 2008-2018 é de que de uma forma geral apresentaram uma tendência assinalável de incremento, com um crescimento acumulado de cerca de 53%, o que corresponde a uma taxa de crescimento média anual (CAGR) de 4,3%. Quais os países que mais contribuíram para este crescimento? Será esta a pergunta que iremos tentar responder seguidamente.

Observando a Tabela 2, que representa o Breakdown das Exportações de moldes em 2018 (e comparando os dados com os apresentados na Tabela 1), a performance da China merece amplo destaque. De facto, este país conseguiu mais do que triplicar as suas exportações de moldes no período em análise (crescimento de 208%) e reforçar a sua quota nos fluxos de exportação, que passou de 13,6% em 2008 para 26,9% em 2018 (ou seja quase que duplicou).
A Coreia do Sul e o México, são outros países com um desempenho de relevo nos fluxos de exportação de moldes. A Coreia do Sul, duplicou as suas exportações entre 2008 e 2018 e passou no último ano a ocupar a 2ª posição do Top dos principais países exportadores (era 5º em 2008) com uma quota superior em 2,3 pontos percentuais à do ano de início da nossa análise.
O México, por sua vez, registou um crescimento das suas exportações de 2,6 vezes, ascendendo à 11ª posição do Ranking (ocupava a 15ª posição em 2008), ultrapassando países como Áustria (10º em 2008), França (12º em 2008) e República Checa (13º em 2008).

 

As exportações Portuguesas de moldes

De acordo com os dados da Comtrade, as exportações portuguesas de moldes cresceram de 439 milhões de USD em 2008, para 756 milhões de USD em 2018, o que levou a que Portugal subisse uma posição no ranking de principais países exportadores, passando a ocupar a 7ª posição, mantendo-se com o 3º exportador europeu.
Durante o período em análise, a Alemanha, a Espanha e a França mantiveram-se como os três principais destinos de exportação dos moldes portugueses (ver tabelas 3 e 4). O crescimento das exportações para estes países, ficou abaixo do crescimento médio das exportações de moldes portuguesas: o crescimento das exportações para a Alemanha ficou ligeiramente abaixo desta média (diferença de 2 pp’s), a evolução das vendas de moldes para Espanha ficaram nos 46,3% de incremento e os fluxos de exportação para França tiveram uma evolução marginal (apenas 0,7% de crescimento em 11 anos). Como veremos mais adiante, a concorrência da China contribuiu para estes resultados.
Durante o período 2008 – 2018, as exportações Portuguesas de moldes para outros destinos (além dos 3 países referidos), intensificaram-se, destacando-se por exemplo a República Checa que sendo o destino de 52,8 milhões de USD de exportações em 2018, passou a ser o quarto destino principal do nosso país. De uma forma geral, as vendas de moldes portugueses para os restantes países do Top 10 nacional registaram crescimentos muito expressivos e bastante acima da média do crescimento mundial de exportações de moldes, demonstrando uma aceitação crescente do produto nacional.

Apesar desta evolução positiva, se procedermos a uma análise um pouco mais detalhada da proveniência geográfica das exportações para os destinos tradicionais da nossa indústria identificamos uma tendência que em nossa opinião deverá preocupar os empresários nacionais do setor.

O mercado alemão

A Alemanha é tradicionalmente o destino mais relevante da indústria nacional de moldes. As exportações Portuguesas para esta geografia cresceram uma taxa cerca de 3,0x superior, ao crescimento (24,2%) do total de exportações para a Alemanha no período em análise.
Aperar do referido, constata-se que a performance da China claramente superou a dos restantes países. As vendas de moldes da China para este mercado cresceram cerca de 631% no período 2008 – 2018. Em 2018, a China ultrapassou a Itália (o 2º principal produtor europeu de moldes), que tem sido historicamente o principal país fornecedor de moldes da Alemanha.

 

O mercado Francês

Em 2008, o mercado francês era o 2º mercado de exportação das empresas portuguesas do setor dos moldes, tendo perdido essa posição para a Espanha ao longo do período de tempo em análise. Comparando os anos de 2008 e 2018, constata-se que as vendas de moldes nacionais para a França tiveram uma evolução marginal a 1% (abaixo da “tímida” taxa de crescimento.
Por outro lado as exportações Chinesas para este mercado mais do que duplicaram, com a China a tomar a posição de liderança desde 2018, “destronando” Portugal, que em todos os anos anteriores da nossa análise, tinha sido o principal país exportador para França.

 

O mercado Espanhol

A Espanha era em 2018, a segunda geografia mais relevante para a produção da fileira de moldes nacional. A posição deste país, no top de destinos dos moldes portugueses, tem variado entre a 3ª e a 2ª posição, alternando com o mercado Francês. Embora Portugal tenha sido sempre o principal exportador de moldes para este mercado, a China tem conseguido consistentemente aproximar-se do topo do ranking de exportadores de moldes para Espanha.
No período 2008-18, a China passou de 5º para 2ª exportador para o mercado espanhol. As vendas chinesas de moldes para Espanha em 2018, eram 3,5x as exportações registadas no ano de início da nossa análise.


Em conclusão

Nas nossas interações com os empresários portugueses do setor dos moldes é comum ouvirmos a afirmação relativamente à concorrência proveniente de produtores chineses que a qualidade dos moldes destes últimos ainda não se aproximará da elevada qualidade média da produção nacional. Encontramos igualmente a ideia generalizada, de que se inicialmente a China conquistou espaço nos nossos mercados tradicionais através de preços mais competitivos, a médio prazo se assistiu a um retorno dos fornecedores de peças de plástico da indústria automóvel aos seus fornecedores tradicionais de moldes.
Os números que apresentámos, contrariam infelizmente estas generalizações. As exportações de moldes chineses demonstraram no período em análise um crescimento consistente e “agressivo” (entre 2008 e 2018, as exportações deste país triplicaram!), conquistando o lugar cimeiro em mercados exigentes e de 1ª linha como o mercado alemão, onde desde 2018, os moldes provenientes da China, ocupam uma posição de liderança com uma distância confortável face à Itália, o segundo produtor europeu de moldes e historicamente (até 2017) o principal fornecedor externo de moldes para a Alemanha.
Observámos que em 2018, Portugal apenas mantinha uma posição de liderança num (Espanha) dos 3 principais mercados de exportação da indústria portuguesa de moldes, tendo inclusive sido ultrapassado pela China no mercado de França, onde até 2017 sempre deteve o lugar cimeiro no ranking de exportadores de moldes para este mercado.
Mantendo-se a dinâmica das exportações chineses de moldes, a entrada ou reforço das mesmas noutros mercados onde Portugal já tem uma posição relevante deverá constituir um cenário com uma probabilidade razoável e que deverá originar preocupações adicionais no tecido empresarial nacional.
Por último, gostaríamos de destacar um outro país que meramente aflorámos ao longo do nosso artigo: a Coreia do Sul.
A Coreia do Sul era em 2018, segundo principal exportador mundial de moldes, tendo duplicado o seu volume de exportações de moldes entre 2008 e 2018. Embora, as exportações deste país ainda se concentrem em geografias do continente asiático, o crescimento da indústria local de moldes poderá levar à procura de novas geografias de exportação, existindo assim o risco hipotético de um aumento de tensão concorrencial com as empresas portuguesas do setor nos mercados onde esta já está presente.

 

Nota sobre as limitações da análise realizada

Existem várias fontes oficiais para dados relativos ao comércio internacional de bens e serviços. Estas fontes nem sempre coincidem entre si e os dados reportados poderão ter diferenças atendendo à falta de uniformização das regras de valorização dos fluxos internacionais por parte das entidades originadoras da informação. Por outro lado a diferente aplicação de taxas de conversão monetárias (os fluxos são convertidos em USD a partir das moedas locais) poderá igualmente contribuir para inconsistências dos dados reportados.
No nosso trabalho, recorremos unicamente aos dados constantes da plataforma UN Comtrade que se mantém uma referência ao nível internacional, pesem embora as limitações referidas.


Carlos Morgado, Corporate Finance Partner

in Revista de Moldes e Plásticos 2020, 30 de janeiro de 2020

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